Em 1978, no Rio de Janeiro, Fadynha começou a acompanhar partos sem que existisse, ainda, uma palavra para o que ela fazia. Ela se chamava de “acompanhante de parto” — o termo “doula” só chegaria ao seu vocabulário muito depois.
Quase cinquenta anos depois daquele início despretensioso em Santa Teresa, a profissão que ela ajudou a inventar no Brasil acaba de ganhar reconhecimento oficial: em 8 de abril de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei nº 15.381/2026, que regulamenta a atuação da doula em todo o território nacional.
Maria de Lourdes da Silva Teixeira, popularmente conhecida como Fadynha, é uma das poucas pessoas no país que pode falar dessa trajetória de dentro: ela ajudou a fundar a ReHuNa — Rede pela Humanização do Parto e do Nascimento — e organiza, desde o final dos anos 1990, um dos maiores encontros anuais sobre parto natural consciente do Brasil.
Sua experiência está registrada em diversos livros de sua autoria: A Doula no Parto — O Papel da Acompanhante de Parto, Yoga para Gestantes — Método Personalizado e Meditações para Gestantes — O Guia para Uma Gravidez Saudável Plena e Feliz, todos lançados pela Editora Ground, além de Diário da Gestante (Novo Século).
Conversamos com ela sobre o que essa nova lei muda na prática e sobre o papel real de uma doula — e ela nos contou, em primeira mão, sobre um documentário inédito sendo produzido sobre sua história e sobre uma possível atualização de seu livro mais conhecido, A Doula no Parto.
De acompanhante de parto a doula: a trajetória de Fadynha
Estudante de comunicação, Fadynha vivia em Santa Teresa, no Rio, em plena efervescência da contracultura dos anos 1970. Foi ali, com o então marido e mais dois casais, que fundou a Aurora Espiritual, organização que depois se tornaria o atual Instituto Aurora: um polo que reunia gente como o fotógrafo Sebastião Salgado e o jornalista e político Fernando Gabeira, e que foi pioneiro em meditação e alimentação natural no Brasil.
Foi nesse contexto que ela criou seu próprio método de yoga para gestantes — testado, antes de tudo, em si mesma. “Fui minha própria cobaia”, resume. Grávida durante a pesquisa que fazia sobre o tema, teve um parto rápido, fácil e domiciliar, que atribui tanto à genética (sua mãe teve onze filhos em casa, no interior de Mato Grosso do Sul, sem nunca ter visto um médico) quanto às práticas que já vinha estudando. O boca a boca fez o resto: gestantes de Petrópolis e Niterói passaram a subir o bondinho até Santa Teresa para suas aulas, que sempre incluíram uma parte teórica — educação perinatal antes mesmo de esse nome existir.
A virada para acompanhar partos veio de uma aluna: “a gente está junto o tempo todo, você não pode estar lá no dia do parto?” Fadynha então começou a ir às maternidades — e, por ser a única fazendo aquele trabalho, era praticamente invisível. “Chegava, dava bom dia, boa tarde, e ninguém me perguntava o que eu estava fazendo ali”, lembra.
Mas o que é uma doula?
Doula é a profissional que oferece suporte físico e emocional contínuo à gestante antes, durante e depois do parto — sem substituir o papel da equipe médica ou de enfermagem. A palavra vem do grego e passou por uma ressignificação ao longo das décadas.

Como Fadynha explica, a popularização do trabalho da doula remonta a um estudo americano dos anos 1990 sobre amamentação e primeira hora de vida: durante a pesquisa, uma mulher se afastou do grupo para ajudar, por conta própria, uma gestante que estava sozinha em trabalho de parto.
O gesto funcionou tão bem que os pesquisadores passaram a nomear esse papel de “doula”. “Assim, o trabalho que eu realizava há anos ganhou um nome”. Até então, ela se autodenominava apenas “acompanhante de parto”.
O que faz uma doula, na prática?
O papel da doula, resume Fadynha, é orientar e acolher: “dar suporte físico e emocional para a gestante.” É daí que vem o bordão que ela carrega há décadas — “respira, rebola e relaxa”. Na prática, isso significa massagem, orientação, técnicas de respiração e acolhimento, para que a mulher se sinta amparada e sinta menos dor.
O que a doula não faz é qualquer procedimento técnico — trocar um soro, por exemplo, é papel exclusivo da enfermagem. “Ela não pode fazer nenhum procedimento técnico — isso é papel da medicina”, explica. Na hora do parto, cada um tem seu papel perfeitamente delimitado. A enfermeira, por exemplo, considerando que enfermeiras também podem estudar para ser doulas: “ou ela é enfermeira naquele parto, ou ela é doula — não pode acumular as duas funções na mesma hora.”

Além de estar presente no momento do parto, a doula pode acompanhar toda a gestação, e até mesmo os primeiros meses de vida do bebê. No Instituto Aurora, Fadynha atende gestantes de forma individual e dá aulas em grupos. “Nas minhas aulas de yoga para gestante, por exemplo, há sempre uma parte teórica de meia hora antes da prática, e cada dia da semana eu falo sobre um assunto diferente. A mãe informada é mais calma, mais consciente. Ela chega no parto com uma carga de ansiedade menor”.
Fadynha destaca que informação diminui o medo. “É natural que a mulher tenha medo de sentir dor, quem não tem? Mas a mulher que passa por uma doula aprende que a dor libera endorfinas — hormônios que aliviam melhor do que uma analgesia”.
Doula é a mesma coisa que parteira?
Não. A parteira pode realizar intervenções necessárias — inclusive, numa emergência, ajudar a receber um bebê, mesmo sem ser sua função. A doula, por definição, não realiza esse tipo de procedimento.
Parteiras estão caindo no esquecimento no Brasil, embora ainda existam em cidades mais afastadas. Fadynha diz que isso é uma pena porque saberes femininos podem “estar sendo jogado fora. Veja, entre povos indígenas e sociedades antigas, uma mulher sempre ajudava a outra no parto e isso acabou fazendo com que acumulassem conhecimento, adquirido por experiência mesmo”.
Ela reconhece, no entanto, que esses saberes tradicionais hoje estão sistematizados e aplicados nas práticas do parto humanizado e no serviço da doula, com mais segurança e técnica. “Houve um tempo em que mulheres não tinham acompanhamento pré-natal no atendimento público, e hoje já contam com planos de parto detalhados, é uma grande evolução. Vamos ter doulas no SUS em breve”, avisa.
O que é um plano de parto, e quem deve fazer um?
O plano de parto é um documento em que a gestante registra suas preferências para o momento do nascimento — quem estará presente, se quer ter direito de andar, se não quer ficar deitada, como deseja (ou não) que seja aplicada analgesia, e todos os detalhes que se referem ao parto.
Fadynha elaborou o primeiro com uma aluna americana, no início dos anos 1980, numa época em que o termo “humanizado” ainda nem era usado — falava-se em parto “natural”. A reação dos obstetras da época, recorda, foi de resistência.
Um ponto importante: o plano de parto não é elaborado pela doula. “Não sou eu, a doula, que faz o plano de parto. Eu só esclareço. É o casal quem decide e formaliza o documento”. O documento se consolidou e hoje é recomendado por muitos obstetras.
Por que a cesárea é tão comum no Brasil?
Fadynha é taxativa: a cesárea “é ótima, é salvadora de vidas” — quando necessária. O problema, segundo ela, está em sua venda como produto. Afinal, o parto natural demora, enquanto a cesária pode ser feita “em linha de produção”, o que convém às maternidades.
Ela lembra que “coisa de índio” era a expressão usada antigamente para desqualificar posições como a de cócoras no parto normal — um discurso pensado para induzir a aceitação da cesárea, que permite atender mais partos em menos tempo, sem a necessidade de acompanhar um trabalho de parto longo.
Quando desnecessária, alerta, a cesárea é arriscada: abre múltiplas camadas no útero, aumenta o risco de infecção hospitalar e tira do bebê os benefícios fisiológicos do nascimento por parto normal.
A literatura científica internacional dá suporte a esse alerta: estudos avalizados por organizações como a Organização Mundial da Saúde associam as reduções expressivas nas taxas de cesárea e no uso de analgesia a melhores índices de saúde para o recém-nascido.
Para Fadynha, a chave para mudar esse cenário é o esclarecimento: “é chegar no parto sem nenhuma dúvida na cabeça; meu trabalho não existe sem informação.” É por isso que ela defende que esse tipo de conteúdo — hoje chamado de letramento perinatal — devia estar nas escolas, para meninos e meninas, junto com a educação sexual.
Qual é o papel da doula na saúde mental da gestante?
O trabalho da doula não se resumo ao parto — e a saúde mental é parte central dele. “Quando a gestante está num ambiente com outras grávidas, isso fica muito facilitado”, explica Fadynha, que desde o início sempre trabalhou em grupo. Quem tem predisposição à depressão pós-parto, ela é direta, “pode ter — é uma grande possibilidade”. Mas o impacto tende a ser muito menor com uma rede de apoio sólida — família, profissionais e amigas.
Fadynha mantém grupos de WhatsApp de mães desde o início da operação do aplicativo no Brasil. Hoje, conta, já tem participantes com três filhos que continuam ali, apoiando mulheres que ainda nem tiveram o primeiro bebê. “Elas se ajudam entre si. A gente tem que usar a internet a nosso favor.”
O que muda com a regulamentação da profissão de doula?
A Lei nº 15.381/2026, sancionada em 8 de abril, estabelece:
• Presença garantida: maternidades e estabelecimentos de saúde, públicos (SUS) e privados, são obrigados a permitir a presença da doula durante todo o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato.
• Direito acumulativo: a presença da doula não substitui o direito da gestante a um acompanhante de sua escolha — são complementares.
• Requisitos para o exercício: diploma de ensino médio e curso de qualificação com carga horária mínima de 120 horas; quem já atuava na função por ao menos três anos também pode obter o registro.
Para Fadynha, que viveu décadas de invisibilidade, a mudança é sentida na pele: “antes eu incomodava pouco”, ela brinca. “Agora a gente tem lei municipal, estadual, federal. Estamos falando de uma profissão.”
Ela observa, porém, que ainda falta um passo: diferente da enfermagem, a doula ainda não tem um conselho profissional próprio — o que, segundo ela, deve vir com o tempo.
O Instituto Aurora, o congresso anual e o trabalho que continua
Da Aurora Espiritual nasceu o Instituto Aurora, que Fadynha ainda mantém. Foi lá que ela começou a organizar palestras quinzenais, gratuitas e abertas, trazendo as poucas pessoas da área de saúde que tinham a cabeça aberta para o tema na época — uma prática que, segundo ela, continua até hoje: “dou palestras gratuitas e abertas, levando obstetra, pediatra, psicóloga para falar sobre um assunto específico.”
Ela também organizou o que se tornaria o Encontro Nacional de Gestação e Parto Natural Consciente — pequeno na primeira edição, mas já nacional, com participantes vindos de outros estados e até do Exterior. Hoje, o evento soma 23 edições. A ReHuNa, rede pela humanização do parto e do nascimento, também continua ativa, com mais de 30 anos de história.
Um documentário inédito sobre a história de Fadynha
Entre as novidades que Fadynha compartilhou em primeira mão está um documentário sendo produzido sobre sua trajetória. O projeto, batizado de "Respira, Rebola, Relaxa" — o bordão que ela repete há décadas para resumir o trabalho da doula — está em produção e é conduzido por Marcel Beiner e Larissa Karl. “Um dos realizadores nasceu com o meu atendimento. Acho isso muito poético”.
Os livros de Fadynha pela Editora Ground
Fadynha já assina quatro livros — três deles pela Editora Ground: Yoga para Gestantes, Meditações para Gestantes e A Doula no Parto, o primeiro livro sobre o tema publicado no Brasil, em 2003.
E aqui vai outra exclusividade: segundo Fadynha, a Editora Ground já manifestou interesse em uma atualização de A Doula no Parto. “Já tenho ideias”, contou ela durante a entrevista — sinal de que o livro que ajudou a apresentar a profissão ao Brasil pode ganhar uma nova camada em breve.
Para saber mais
De acompanhante invisível a profissão regulamentada por lei federal, a trajetória de Fadynha é, em boa medida, a própria história da humanização do parto no Brasil. Para quem quer se aprofundar no tema com a mesma voz que ajudou a construí-lo no país, A Doula no Parto, da Editora Ground, continua sendo referência.


