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A Mãe Possível

A Mãe Possível

Os caminhos do xamanismo para dissolver a culpa da mãe que não é perfeita

Carminha Levy e Laura Bacellar

Tema:

Autoconhecimento

Tamanho: 16,00 x 23,00 cm
Páginas: 184
ISBN:

9788571872202

Preço: R$39,00
Disponibilidade: 3

Exemplares: COMPRAR

Esse livro nasceu para aplacar a culpa que as mães sentem por não serem perfeitas. Elas querem trabalhar para poder dar o melhor às suas crianças, mas querem também estar em casa quando os filhos precisam dela. Anseiam por uma carreira e o respeito que uma profissão bem exercida traz, mas ao mesmo tempo buscam aquela conexão ancestral, pele com pele, com seus filhos. E em todos os momentos sentem-se julgadas, divididas, incapazes de corresponder ao que o mundo espera delas como mães. Seu sentimento de culpa é avassalador.

Como as mulheres bem sabem, o uso da força de vontade e da determinação dos pensamentos – como indicado em tantas obras – nem sempre causa uma mudança no mundo real.

Em A mãe possível, é sugerido um caminho completamente diferente, que usa as forças instintuais, inconscientes, dos símbolos e da conexão com o sagrado para resolver os problemas do cotidiano.

Esta é uma obra de neo-xamanismo, que ensina práticas ancestrais adaptadas para as cidades. Com exercícios simples e uma série de exemplos, as mulheres aprendem como entrar num estado alterado de consciência xamânica onde se alinham com seus ancestrais, dialogam com seres míticos e arquetípicos, acessam seus animais de poder e as forças que vêm da natureza para modificar a realidade a partir do mundo simbólico e começar a traçar um caminho de mais parceria e afetividade.

Problemas como dificuldade de dar limites aos filhos, de ser pai e mãe ao mesmo tempo, de educar sem sufocar, de fazer parceria com o cônjuge para cuidar das crianças são abordados – e resolvidos – de uma nova forma, não mental, com o coração.

Todas as práticas aqui ensinadas fazem brotar alegria e leveza no exercício de ser mães possíveis e não idealizadas.

*As autoras escreveram um ANEXO à obra, para elucidar as leitoras interessadas sobre o conteúdo das viagens xamânicas que deram origem ao livro, veja o texto na íntegra na aba ao lado.

Nossas viagens para a construção do livro

          Esse livro foi escrito de maneira xamânica. Isso quer dizer que, a cada capítulo ou parte importante, nós parávamos de escrever, batíamos o tambor com a intenção de ver o que precisávamos abordar, e fazíamos uma viagem na imaginação.

          Sempre fizemos rituais de abertura e fechamento para nossas seções de escrita e pedimos o auxílio de seres de luz e de nossos animais de poder.

          Para você ter uma noção de como funciona, transcrevemos aqui o resumo de nossas viagens e o que concluímos. Você precisa levar em conta que Carminha Levy é uma profissional do xamanismo com trinta anos nesse caminho e Laura Bacellar já pratica há mais de dez anos, o que faz com que nossas viagens sejam mais rápidas e cheias de símbolos do que para uma pessoa iniciante. Não se intimide com a profusão de imagens, portanto. Elas costumam aparecer na medida do nosso entendimento desta realidade mais sutil, e nas suas viagens vão interagir com você de acordo com a abertura que você der para esta experiência. Tudo no xamanismo é de acordo com a vontade e a verdadeira intenção de cada um.

Carminha Levy e Laura Bacellar

 

Viagem para enxergar o tema do livro

          Carminha viu uma moça, chamada Aline, de cima e também uma longa linha de mulheres se estendendo para trás, ancestrais. Um homem-águia a fez voar e olhar o mundo de cima.

          Aline depois era uma criança cuidada pelo homem-jaguar, que lhe falou sobre o lugar dela no mundo.

          Carminha viu o globo azul muito bonito, novamente de cima.

          Veja que traduzimos essa viagem de Carminha como uma mulher que se liga às mulheres que vieram antes dela, tema que desenvolvemos nos primeiros capítulos. A visão do homemáguia nos inspirou a dar o primeiro exercício – sair da situação e procurar uma visão de cima – e o homem-jaguar inspirou o animal de poder de nossa personagem, a pantera. Estas são figuras arquetípicas de muito poder no mundo xamânico e aparecem em várias culturas, como se pode observar por exemplo em pinturas rupestres, como símbolos de uma consciência elevada e muito atuante. Para nós, significou que o livro teria esse alcance arquetípico.

          A visão de Carminha nos fez ainda procurar explicações históricas abrangentes, sociais, para os problemas particulares da personagem. Quisemos falar do que é importante para a terra, nosso planeta azul.

 

Viagem para os capítulos 1 e 2

          Carminha viu uma mãe e três crianças, uma das quais era Aline, caminhando pela neve fofa que caía. Elas chegaram a uma escola, que era a meta da caminhada, com grande esforço. Uma raposa branca acompanha a caminhada pela neve. Enquanto fazia essa viagem, Carminha chamou o leão (seu animal de poder) para compreender melhor o que estava vendo, mas o que apareceu não foi seu animal de sempre, mas um leão branco.

          Surgiu então uma imagem da grande mãe como rainha, uma deusa muito amorosa e poderosa. Ela seria a visão que as crianças têm da mãe.

          Laura viu um rio e, na sua margem, uma mulher e uma criança, ambas índias, estendendo uma manta com sinais tecidos na trama.

          Depois a mulher se envolveu na manta e tornou-se uma anciã poderosa. Em seguida saiu andando, fazendo um grande círculo pela planície, e outras pessoas da tribo a seguiram.

          Depois de um quarto de círculo, chegou a um ponto de muita luz, ofuscante. Entrou na luz e recebeu um objeto como um rolo de metal bem grande. Ela abriu como um pergaminho e leu.

          A impressão/mensagem foi que podíamos falar da Grande Mãe e das mensagens de luz das estrelas.

          A nossa interpretação dessas visões foi abordarmos, no primeiro capítulo, as expectativas das crianças em relação às suas mães, como elas esperam que as mães lhes deem conforto, amor e proteção. Analisamos o quanto isso pode ser pesado para a mãe e sugerimos alternativas para o que vimos como sinais de poder. Quando um animal aparece na cor branca, está em sua forma máxima de poder, acima da média mesmo para animais de poder. Carminha viu ainda que nossa personagem precisava aprender a se metamorfosear, uma das características vitais da raposa, capaz de ficar branca no inverno para não se sobressair na neve. Assim, Aline foi levada a assumir outros papéis além do tradicional esperado dela como mãe.

          A raposa simboliza também a astúcia, indicando que parte das soluções de uma mulher, numa posição como a de Aline, não virão de confrontos mas de artimanhas criadas para conduzir a família.

          A visão de Laura confirmou o poder das técnicas antigas do xamanismo – o círculo, a manta, os índios – para chegar a um ponto de luz. Nossa visão confirmou que podíamos falar de luz e abrir espaço para mensagens talvez inusitadas. Foi aqui que decidimos que não teríamos um livro de auto-ajuda muito comum.

 

Viagem para o capítulo 3

          Carminha viu uma borboleta saindo de um casulo, que no começo gordinha, depois criou asas e voou. A cena mudou então para uma dança de roda, em que as pessoas usavam roupas tradicionais.

          Nova mudança e apareceu uma corrida de cavalos no jóquei.

          Laura viu uma ponte sobre um rio, do outro lado a terra estava coberta de brumas, no meio das quais havia uma aliá e elefantinhos.

          Veio um vulcão, que entendemos como os aspectos da terra – bem práticos do dia a dia – porém incluindo as contrapartes sombrias, como as raivas escondidas que podem explodir como uma erupção de lava.

          Reunindo as duas viagens, nós decidimos que o tema do capítulo seria a competição entre homens e mulheres, demonstrada pela corrida de cavalos. A borboleta indicava que havia algo que precisava amadurecer para se transformar na vida da personagem, o que nós entendemos como o caminho que Aline precisava percorrer para construir uma verdadeira parceria com seu marido. A visão de Laura indicou que podíamos ir fundo no que é mais difícil – a sombra – para operar essa transformação. A ponte sobre o rio confirmou que podíamos falar do difícil caminho que passa por emoções turbulentas, já que águas costumam indicar emoções. A visão da aliá inspirou a energia animal a ser exercitada no capítulo.

 

Viagem para o capítulo 4

          Carminha viu formas geométricas – que significam a força do mental, dos pensamentos – transformando-se num sol negro. Depois, ela viu um homem adulto dobrado dentro de um casulo. A forma de ele sair dali era ficar ereto e sair nu. Carminha, mesmo dentro da viagem, já entendeu que a imagem indicava a necessidade de conscientização do papel do homem na cabeça da mulher, que precisava ser desnudado.

          Laura viu um sapo com uma coroa na cabeça, que primeiro desceu para o lodo negro e depois subiu uma escada abstrata. Uma porta se abriu e ele entrou num quarto iluminado, onde havia a face de um homem de luz.

          Note que as duas viagens estão repetindo símbolos: a escada sugere elevação, sair de um casulo ereto também; a coroa do sapo mostra uma atividade mental intensa, assim como as formas geométricas; quando o homem sai do casulo repete o tema do sapo, que primeiro vai para o negro e depois para a luz. O sapo ainda é um príncipe em potencial, como o homem iluminado no final daquela viagem.

          A imagem do casulo foi transformada no exercício da crisálida, que continuou a imagem da viagem de uma borboleta que se transformava. Nós interpretamos que a imagem do homem de luz indicava de que a mulher carrega o masculino dentro de si, e que ela precisa entender isso para trazer o feminino à parceria.

 

Viagem para o capítulo 5

          Carminha avistou um território de longe, num zoom chegou mais perto e viu que era seu próprio corpo. De suas orelhas cresceram “escutadores”, como chifres de veado, e depois os chacras da palma das mãos se abriram.

          Laura viu imagens rápidas: uma represa com uma sangria, um adulto que segurava uma criança mostrando onde eles queriam chegar, e sentiu a necessidade da conversa em círculo.

          Interpretamos que o território e a represa eram indicações de limites. Precisamos conhecer nossos próprios e ouvir os dos outros antes de agir. Entendemos também, pela imagem dos escutadores como chifres, que era hora de falar do animal de poder, algo instintual que precisa ser escutado.

 

Viagem para o capítulo 6

          Quando terminamos o capítulo 5, sentimos que tínhamos dado um rumo para Aline, nossa personagem da linha do tempo e da ligação com as ancestrais. Também sabíamos que deveríamos falar ainda de muita coisa importante. Apesar de este livro não abordar tudo do xamanismo, queríamos apresentar um bom leque de técnicas para as leitoras.

          Fizemos então viagens em busca de inspiração.

          Carminha viu-se entrando numa floresta de cristais rombudos onde encontrou um mestre de capuz. Ela pediu inspiração e ele disse que o caminho da caverna era bom e para ela lembrarse de honrar o elemental do livro.

          Os cristais indicam uma fonte poderosa de energia e o caminho da caverna – uma imagem clássica de entrada no mundo profundo – mostrou-nos que deveríamos nos aprofundar em conteúdos do inconsciente coletivo. Se você notar, é aqui que o livro dá uma guinada para as profundezas, em obediência à indicação desse mestre.

          A lembrança do elemental foi também importante. Toda a matéria possui elementais, seres focados na construção das coisas sólidas. Há alguns bem conhecidos, como os do fogo (salamandras), da terra (duendes e gnomos), do ar (sílfides e elfos), da água (ondinas e iaras), as fadas de modo geral. O que muita gente não sabe é que não são apenas as árvores ou os rios que têm elementais, mas realmente tudo o que existe na matéria, como carros, computadores, mesas e... livros!

          O nosso, por exemplo, também tem um elemental focado na sua construção, para que ele se realize no físico. Honrar esse ser facilita a execução do trabalho.

          Fizemos então novas viagens com a intenção clara de ver que mundos profundos deveríamos abordar.

          Carminha viu uma fonte que canaliza água de forma controlada e depois a viu em formato estilizado, como uma aranha. Essa aranha transformou-se então numa joaninha.

          Vários símbolos geométricos, indicando atividade do mental superior, se mostraram e depois apareceu o leão dourado, o animal de poder de Carminha com o acréscimo da luz dourada para ajudar, e Vênus, deusa do amor e da beleza, surgiu das águas, nascendo da concha como no seu mito.

          Laura viu o elemental do livro como uma luzinha e o livro como uma luz maior. Quando perguntou sobre o capítulo seguinte, sentiu que seria sobre a mãe solteira. Viu uma mulher deitada, desesperada, e um símbolo aparecia atrás dela, o olho de Hórus. Depois, veio a instrução de falar do contato com o que é maior, e para falar da alegria.

          Interpretamos de várias maneiras essa quantidade grande de símbolos. No capítulo seguinte iríamos falar então de uma mãe solteira sobrecarregada. Iríamos também nos aprofundar em algumas questões, por exemplo a do feminino que pode recorrer à criatividade – uma das facetas da aranha – para resolver problemas. O olho de Hórus, visto por Laura, representa a possibilidade de acessar uma visão mais abrangente e penetrante, a do deus falcão egípcio.

          Resolvemos então dar o exercício de soltar o masculino e o feminino aprisionados, e também o de fazer um totem doméstico.

          Foi feita uma viagem rápida para ver qual seria o animal de poder da nova personagem, Corina. Carminha viu um felino e Laura enxergou o quati. A imagem de Laura estava muito nítida. Quando pesquisamos as qualidades do quati – um animal que lava seus alimentos na água, representando facilidade em lidar com emoções – decidimos que ele se encaixava muito bem com a imagem que Carminha havia visto, de uma fonte controlada.

 

Viagens para os capítulos 7 e 8

          Carminha viu uma sílfide enorme e Bruna, nossa nova personagem, participando de um conselho de mães animais. Decidimos que iríamos falar de uma adolescente grávida que iria entrar em contato com a sabedoria xamânica através de um grupo.

          Começamos a escrever sobre a mãe adolescente, mas o elemental do livro nos levou para Rosa, a mãe da jovem personagem. Quase sem querer, fomos obrigadas a entrar na culpa dela pelo comportamento da filha.

          Fizemos novas viagens para sabermos que rumo tomar.

          Carminha viu uma mestra com um regalo (agasalho cilíndrico para aquecer as mãos). Ela conduziu Rosa para um local onde havia uma fogueira, mas começou a chover e a fogueira se apagou, produzindo uma fumaceira. Apareceram pernas com pés muito grandes, como se fossem de gigante. A mestra chamou Rosa para acompanhar os pés, que caminhavam. Carminha percebeu, durante a viagem, que a solução estava não no ponto de chegada, mas na caminhada.

          Laura viu Rosa carregando uma pedra. Ela morava debaixo de um capacete gigante, romano. Dentro havia uma estatueta de bronze que segurava um globo de luz. Rosa precisava largar a pedra e ficar ereta. Depois, ela voou com uma vassoura na mão, uma super feiticeira.

          Deduzimos que Rosa precisava abrir mão de toda a herança patriarcal sob a qual vivia (o capacete romano), perder o medo de ser mágica e entrar em contato com sua luz e seu poder de feiticeira, que lhe permitiria voar acima dos problemas. Colocamos então o exercício do contato com o mestre interior, que aciona justamente esse poder interno.

          Percebemos que Rosa teria que lidar com emoções muito fortes – a água que apaga o fogo e produz uma fumaça cegante – que tiravam seu entusiasmo e a deixavam sem visão. Ela iria precisar aprender a não insistir nos resultados, mas acompanhar a maestria do caminho.

          O capítulo mexeu com muitos conteúdos e estávamos em dúvida quanto à atitude da personagem. Fizemos mais uma viagem para definirmos alguns pontos, que estendemos para o capítulo 8.

          Carminha ouviu um chocalho de cobra e depois um pau-de-chuva. Viu um vendaval, Rosa se segurando a uma árvore para não ser levada, e depois uma chuva fina que preparou a terra na qual ela plantou sementes. Nasceu uma relva verde que se transformou em flores e entrou o som de uma arara ou corvo.

          Laura viu também uma baleia entrando num redemoinho e saindo inteira do outro lado, nadando sem problemas. Surgiu um peixe dentuço para atacar, mas a baleia não lhe deu a mínima importância.

          Resolvemos que o capítulo iria falar da necessidade de alegria (simbolizada pela arara) e a parceria (já que esse animal sempre voa em par).

          Nossas visões mostraram que a situação da personagem, de fato, tinha perigos: Carminha ouviu uma cascavel e viu um vendaval, Laura enxergou um redemoinho e um peixe ameaçador. A resposta, porém, veio dentro das viagens: uma chuva fina se seguiria para fertilizar a situação, a baleia não precisava se incomodar com a ameaça.

          Escolhemos a baleia como animal de poder de Rosa, o que nos pareceu consistente com sua forma de ser. Sem precisarmos pensar muito, as dificuldades – o grande redemoinho – de Rosa foram se apresentando, assim como a maneira de lidar com elas pela mãe interior, poderosíssima.

          É bom lembrarmos que tanto as situações de vida das personagens de que falamos como as soluções encontradas e as mudanças de vida se baseiam em pessoas reais que passaram por atendimento xamânico com Carminha e fizeram exercícios como os que recomendamos aqui. Nada veio de nossa fantasia, as viagens serviram apenas para decidirmos em que exemplo verdadeiro iríamos nos basear.

 

Viagem para o capítulo 9

          Carminha queria que Rosa brigasse imediatamente com a família do pai do nenê para resolver a questão de assumir a paternidade, Laura achava que este não era o caminho. Assim, fizemos uma viagem para decidir.

          Carminha viu o menino no centro de uma mandala dos ancestrais dele, que o protegiam. Depois, viu o menino escorregando numa enorme língua. Aí apareceu um ídolo coreano que primeiro estendia o braço direito, depois abria o outro braço.

          Laura viu Rosa nadando com uma baleia orca que se desdobrava em várias imagens e a conduzia até uma luz imensa, que era o olho gigante de uma divindade.

          Nossa interpretação foi a de que o livro realmente não queria o caminho do confronto. A mandala, como já comentamos, é um fortíssimo símbolo de integração, e Carminha tê-la visto indicava que deveríamos fazer as famílias nossas personagens se entenderem através dos ancestrais do garoto. Achamos também que era uma boa indicação do exercício a ser sugerido, o círculo da parceria, na verdade uma mandala de comunicação.

          A baleia foi entendida como um reforço do animal de poder da personagem, que não precisaria fazer muito além de expressar a sua essência. Ela deslizaria naturalmente para a luz da solução de seus problemas.

 

Viagem para o capítulo 10

          Quando sentimos que havíamos resolvido a situação da mãe-avó, conseguimos voltar para nosso ponto inicial, a mãe adolescente. Mas tivemos dúvida quanto ao seu destino. Como você pode perceber, o livro foi tomando vida e criando uma dinâmica muito além de nossos pensamentos. Nossa intenção clara, sempre repetida no início de cada encontro para escrita, foi a de produzirmos um texto útil que ajudasse as leitoras, mas os detalhes nós permitimos que fossem se organizando pelo xamanismo.

          Em relação a Bruna, Carminha queria vê-la casada e feliz com um rapaz bonito e atencioso, o próprio príncipe encantado, ainda que tardio.

          Laura não estava muito convencida de que este fosse o melhor caminho para a adolescente.  Fizemos então uma viagem para saber o que seria melhor para Bruna e o livro.

          Carminha viu um escaravelho dourado, depois o deus egípcio Rá com o sol no meio dos chifres. A seguir, apareceu um ponto luminoso que se alargou e de onde saíam raios dourados que começaram a se mexer. Sentiu também um cheiro forte de arruda.

          Laura viu uma mulher penteando seus longos cabelos sem olhar para o espelho. Viu ainda uma mulher deitada na barriga de uma grande mãe do tamanho de uma montanha.

          Entendemos que o caminho romântico não era o melhor, uma vez que o símbolo da Rá, super solar, indica que a menina precisava trabalhar mentalmente várias questões e tomar decisões objetivas, baseadas na força da vontade. O sol sempre está ligado às qualidades masculinas como pensamento lógico, atitudes diretas, um rei entronado. Rá era o deus sol para os egípcios da antiguidade e sua presença reforça a ideia de que a personagem teria que fazer descobertas sozinha. Ela precisava assumir seu poder como adulta.

          A visão de Laura, por outro lado, sugeria um contato com a Grande Mãe, que perdoa, ajuda e acolhe. E que ela precisava olhar para si com mais atenção. Desenvolvemos então um exercício de contato com as duas forças que vimos, o círculo do feminino sagrado e os mestres de luz do masculino iluminado. Entendemos que a arruda, indicadora de proteção, estaria presente na viagem ao círculo de pedras sagradas envoltas pela luz. Rá nos sugeriu o uso de uma imagem egípcia, Anúbis, para a viagem de Bruna, e a possibilidade de ela mesma escolher: ser mãe ou ignorar o filho.

          Mencionamos a força do grupo porque esse é uma das formas de trabalho fundamentais de Carminha dentro do xamanismo matricial. O grupo acolhe como a mãe e tem uma energia maior do que a de cada indivíduo somada. Essa combinação energética abre muitas portas e permite visões bem mais amplas do que a pessoa teria sozinha, e mostra diferentes ângulos de uma questão. Sentimos que a imagem da mãe-montanha combinou com essa característica do trabalho xamânico de Carminha na Paz Geia e por esta razão descrevemos aqui como seria uma sessão.

 

Viagem para o capítulo 11

          Esse capítulo deu mais trabalho porque tínhamos várias expectativas que mudaram conforme o fomos escrevendo e fazendo viagens. Queríamos falar das mães lésbicas, porque elas são invisíveis para a sociedade e acumulam, aos problemas usuais de cuidar dos filhos, o de sofrerem preconceitos. Carminha desejava também falar de bullying, algo que a incomoda diariamente, não apenas diretamente, por cuidar de seu neto pré-adolescente que cursa uma escola de classe média alta, como pelos relatos trazidos pelas mães que frequentam a Paz Geia. Carminha é movida por uma ânsia de justiça como só uma leonina rosnando alto pode demonstrar.

          No entanto, nosso nobre intuito mudou quando a personagem apareceu para nós, negra. Apesar de Laura entender bem de homossexualidade, já que é uma lésbica assumida, o problema que se impôs com mais força foi o do racismo. Celeste surgiu para nós com uma constelação de desafios: racismo, diferença social em relação à companheira, homossexualidade, família nada acolhedora e ainda as dificuldades do filho com os colegas por ser negro e filho de homossexuais.

          Fizemos então viagens para resolver o que faríamos.

          Carminha fez uma viagem muito forte, cheia de símbolos poderosos. Ela foi até o mundo profundo e convidada a entrar num labirinto. Ao percorrê-lo, passou por três câmaras, cada qual com uma imagem indicadora de mudanças: um cálice e um coração, Shiva dançando e a arca da aliança.

          Laura viu uma coruja voando com os olhos bem abertos no meio da noite, em silêncio e pronta para a ação.

          Concordamos que podíamos ir mais fundo. A coruja é o animal das mães do mundo profundo e da sabedoria intuitiva, que enxerga onde ninguém vê. Decidimos fazer uma viagem, como se fôssemos a personagem, para o labirinto com três câmaras, e assim descobrir o que deveríamos comentar através de Celeste.

          Carminha viu primeiro Exu com um prato na mão que continha um ovo, com postura de reverência, uma oferenda para as Mães dos Pássaros do mundo profundo. Uma fumaça se espalhou como um platô. Carminha convocou um leão branco e pediu que ele acompanhasse a personagem Celeste para dentro do labirinto. Ela foi direto para o centro, onde viu a arca da aliança sobre um pedestal. Quando a abriu, Celeste viu a vida inteira passar, todas as batalhas por que tinha passado para seu crescimento e cultivo de sua dignidade. Carminha pediu que a resposta fosse aprofundada, já que é possível dialogar com imagens e cenas durante uma viagem xamânica. Apareceu o coração de Cristo coroado de espinhos e uma voz disse que os espinhos precisavam ser tirados, pois não serviam mais. A viagem se encerrou com imagens de uma série de deusas maternais e grandes mães.

          Laura também visitou o labirinto para descobrir o que a personagem precisava. Ela viu três câmaras: na primeira, um leão; na segunda, um jardim todo arrumado e um palácio de tetos altos e dourados com uma entrada sombria à esquerda. Recebeu a mensagem de criar o que se quer, e plantar o que se deseja colher. Na terceira, viu um cowboy, a cavalo, rindo e rodando o laço no ar.

          Com tantos símbolos (e um grand finale), tivemos várias interpretações. O caminho visto por Carminha nos mostrou que a energia que resolveria os problemas de Celeste é a energia crística revisitada, ou seja, a energia do amor sem necessidade de sofrimento. Esta pareceu a melhor correspondência ao coração da mãe, cheio de rosas e sem espinhos. Entendemos que esse símbolo poderoso mostra que a solução para o racismo está na energia crística do masculino combinada com a do feminino, um feminino ativo com atuação.

          As visões de Laura sugeriram um espírito de brincadeira – o vaqueiro rodando o laço – e a possibilidade de a personagem entrar em contato com seu Self a caminho da individuação. O palácio organizado com uma entrada sombria permite essa interpretação junguiana por excelência, de integração da personalidade através de uma caminhada pela sombra, pelo que está oculto. Segundo Carminha, quando alguém tem uma visão como esta, está no bom caminho de se organizar internamente.

          Se você reler esse capítulo, verá que transportamos tanto o que vimos quanto a própria viagem de visita ao labirinto como exercício proposto. Esse capítulo se estruturou fortemente com base numa região que não temos como descrever, mas que seria como que o inconsciente do Anexo - Página 8 próprio livro. O xamanismo nos leva a visitar regiões inusitadas, mas muito significativas e coerentes com o que precisamos.

 

Viagem para fechar o livro

          Carminha viu a flor bastão-do-imperador, significando o masculino e a necessidade de uni-lo ao feminino. Viu também a cidade de São Paulo e uma luz irradiando acima dela. Enxergou ainda a parte superior do símbolo da Paz Geia, a meia lua com um círculo dentro.

          Laura viu uma lésbica chorando e sentiu que precisava ensiná-la a cuidar de si, honrar a si mesma. Tanto a lésbica quanto todas as mulheres hoje, deparam com o desafio de integrar o masculino ao feminino, já que vivem nos dois mundos.

          Interpretamos as visões como indicativas de que precisávamos oferecer ainda mais um reforço ao feminino e insistir para que as leitoras acessem seu poder. Numa viagem complementar, Carminha recebeu um bastão de fogo e Laura viu um livro dourado sendo folheado por anjos. Acreditamos que recebemos confirmação da ligação deste nosso trabalho com as energias da luz e da grande consciência.

          De novo lembramos que você não precisa se inquietar com a quantidade de imagens, sons e até cheiros que vieram até nós nas nossas viagens, estamos habituadas a abrir as portas entre os mundos com a energia do coração. Não se preocupe tampouco com as explicações sobre os símbolos; com o tempo, eles tornam-se tão falantes quanto os animais, não é preciso entendê-los mentalmente. Você vai ver que, se quiser seguir esse caminho, tudo vai se comunicar com você como uma conversa entre amigos, simples e mágica.

          O exercício final, simples e mágico, é algo que praticamos e sentimos ser uma ajuda imensa nas horas mais complicadas. Esperamos que aproveitem.

Assista entrevista com a editora no ClickTV UOL: